Que seja em nome de Deus


Manoel Jesus*

manoel@atlas.ucpel.tche.br


Não há chances de amar, se não for capaz de se perder.


Não quero brincar com minha existência. Procuro, todos os dias, o sentido que Deus quis dar a ela. E sei que seus caminhos são também os meus.


Um novo início

Alceu esteve lúcido até o final de sua vida. Era capaz de lembrar com detalhes, para mim, os mais estranhos, tudo o que acontecera depois do início do século e da revelação. Mas registrei-os, metodicamente, bebendo cada uma de suas palavras. Foram longos dias de ditado que eu tinha que tomar nota em blocos, passar para o computador, tirar cópias e lê-las para o Homem. Até o momento em que cheguei com a primeira cópia do livro. Quando acabou de contar o que aconteceu com o primeiro grupo dos Vinte e Um e sua mensagem final, entrou em depressão. Por muitos dias, não quis conversar comigo.

Eu estava preocupado. Sabia, então, mesmo que fosse um garoto de cerca de 18 anos, do material que tinha nas mãos.

Por favor, não pensem que meu intuito era de serviço para os Vinte e Um. Acontece que a sua publicação trouxe reconhecimento imediato. E eu estava, como diziam os jovens, na “crista da onda”. Começar a ser escanteado, cheirava a ter, de Alceu, a idéia de alguém que não sabia valorizar exatamente o serviço. Para mim, era um ingrato.

Eu não conseguia entender o alcance do que fora Nos Braços do Eterno Descanso. Nem tinha como. Afinal, saído da Casa da Cidadania para o mundo, este me envolvera com todos os tipos de sedução. E eu estava encantado com tudo o que o mundo literário poderia me propor.

Voltei às minhas aulas, com o reconhecimento dos colegas pelo serviço que prestara – muitos faziam parte dos Vinte e Um – mas certo de que não haveria continuação. E isto me doía muito.

Minha vida foi se organizando para ser a vida de um bom advogado – estava me preparando para entrar no curso de Direito. E na iminência de constituir uma família. Estas doideiras do passado estavam acabando. Finalmente, eu estava me tornando um homem.

 

***

 

Claro que vocês não tem obrigação de me conhecer. Então, recomeço. Meu nome é Ângelo. Estive na Casa da Cidadania, onde todo o trabalho social do grupo dos Vinte e Um iniciou. Inicialmente, tive muitas discussões e, como bom adolescente, consegui infernizar a vida de Alceu. No entanto, seu espírito ficou iluminado, depois que Gustavo, Ritinha e Padre João se aconchegaram nos braços do Eterno Descanso. E eu sentia que tinha uma participação efetiva num trabalho que eu não entendia bem.

Foi quando Alceu me convidou para registrar a experiência do primeiro grupo dos Vinte e Um. Queria que a lembrança não se diluísse com o passar do tempo. E tinha razão. Afinal, muitas das coisas que recuperamos, o fizemos com muito esforço, juntando detalhes armazenados nas lembranças de diversas pessoas. Então, a partir de agora, conto o trabalho de Alceu e dos Vinte e Um, até que chegou a hora em que o próprio Homem também se entregou nas mãos do Eterno Descanso.

 

A volta ao Monte da Revelação

Passaram-se dez anos. Foi com surpresa, quando cheguei em casa, e recebi o recado de que um Alceu telefonara e me esperava. No dia seguinte, às 10 da manhã. No Monte da Revelação. Claro que não poderia ir ao seu encontro. No dia seguinte, minha agenda estava lotada, a partir das 7 horas da manhã. Eram tarefas como: levar os dois filhos ao colégio, enfrentar a primeira reunião no escritório às 8 horas e uma audiência em juízo. Para completar o dia ainda teria que acompanhar uma aula magna na Universidade e enfrentar dois julgamentos.

Não havia um telefone para retorno. Paciência, os compromissos eram mais importantes que sonhos de uma juventude, que ficara distante há uma década.

 

***

 

Ao chegar, encontrei Alceu sozinho. Apoiado em uma bengala olhava a distância. Mantinha um xale, do tipo que os indígenas usavam às costas, seguro pela outra mão. Eu estava às suas costas. Não poderia ver-me. Mas sentiu-me.

-        Temos um outro trabalho para você fazer.

Mantive-me em silêncio.

-        Os Vinte e Um precisam continuar. – Foi quando se voltou. – E você precisa amadurecer.

Esta era a parte que eu não esperava.

-        Durante estes dez anos, tenho depoimentos, artigos, vivências de integrantes dos Vinte e Um que precisam tornar-se do conhecimento público. E você precisa ajudar novamente.

-        Mas eu não tenho tempo para isto, Alceu. Os tempos são diferentes. Não sou mais um adolescente com todo o tempo disponível para ajudá-lo.

Alceu sentou-se em frente a uma porta janela, de onde podia ver toda a área da frente da casa, em direção da porteira.

-        Porque os tempos são diferentes, meu filho? Não podes continuar o trabalho que iniciastes?

-        Mas é diferente, Alceu. Já nem sei se acredito nas mesmas coisas que acreditava naquele tempo!

Mais um de seus silêncios.

-        Agora, estás me imitando. Eu também pensava assim. Até que fui fisgado pelo Eterno Descanso. E que fisgada. Foi tão forte que, até agora, não consegui me desvencilhar.

-        Não são mais aqueles tempos do início do século.

-        E qual é a diferença?

Tive que pensar e responder:

-        Não sei.

-        Eu também não sei. Mas sei que precisamos continuar. E que tu serás o Homem, quando eu me for.

-        Isto é uma bobagem!

- Bobagem alguma. Vais passar por duas provações. Precisarás ser forte. No tempo exato, terás a resposta. E não será antes que eu me vá. E tudo ficará em tuas mãos.

-        Estás me assustando!

- Prepara-te, meu amigo. Prepara-te. Temos sete encontros a realizar. Depois disto, teu tempo estará chegando. Olha sobre a mesa que está ao lado da porta.

Uma pequena mesa com apenas um objeto ao centro: um caderno comum, de aula.

-        O que é isto?

-        Abre.

Minha emoção foi muito forte quando, sem ter reconhecido a letra que tinha tido tanta influência em meus primeiros momentos com as artes e a literatura, saltaram com a assinatura da primeira página: padre João. Meu Deus, quanto tempo. E porque este material chega somente agora a minhas mãos?

- Porque somente agora tens condições de entendê-lo e utiliza-lo bem. – Alceu lera meu pensamento. – Irmã Odila entregou-me este diário poucos dias antes de falecer. Durante muito tempo pensei até que não era um material para publicação. E na verdade, não o é todo. Mas o que ele relata desde o dia em que conversou comigo no Bispado, até aquele domingo em que morreram, isto precisa ser publicado.

Eu folheava o caderno com muito carinho. 

-        Eu não sei o que dizer.

-        Não diz nada. – Olhou para a porta contrária, em direção da cozinha. - Adelaide! Temos visita.

Adelaide veio da cozinha. Ângelo emocionou-se em ver uma velha amiga. Estava envelhecida. Mas os traços eram os mesmos. O jeito fácil de sorrir e de secar as mãos no avental, seguido pelo passar de mão no cabelo, que havia embranquecido, mas sem que o tempo deixasse muitas marcas em seu rosto. Um abraço demorado, com um afagar carinhoso e um olhar olho no olho.

-        Tu foste a maior das pestes que eu já tive que acompanhar.

-        Estou pagando por isto agora.

-        É mesmo? O que aconteceu?

-        Tenho filhos.

A risada foi espontânea.

-        E eles saíram ao pai?

-        Pior.

-        E o que é pior?

-        Reuniram o que o pai incomodava e o que alguns amigos, tipo o Alceu, acabaram plantando nele.

-        Falando nisto, quando iniciamos?

-        Alceu, não me pressiona. Sinceramente, tenho que pensar a respeito. Posso voltar em um mês?

-        Não, uma semana.

-        Quinze dias?

-        Nem pensar. Uma semana.

-        Tá bom. Eu volto. Eu volto.