Roleta-russa


Depois que abordei o tema “vivendo perigosamente”, o que não faltam são surpresas, a cada dia, com o que me contam jovens e adultos. As “experiências” para testar os limites não somente aceleram a adrenalina, mas ultrapassam os limites da vida.

Em conversa com professores, a pergunta: o que está acontecendo? A resposta foi devastadora: não sabemos. Os “nossos” valores de vida estão sendo relativizados por jovens que, muitas vezes, ouvem, mas, na prática, fazem outra coisa. Transmitimos uma cultura que já não sensibiliza a muitos deles, pois criaram uma contracultura, com princípios que assustam como é o caso da violência para combater a própria violência.

Consideramos a vida como um bem precioso e ela já não merece deles o mesmo valor. No passado, quando assistíamos a filmes na televisão ou no cinema mostrando o mocinho e o bandido num duelo, sabíamos quem seria o vencedor. O máximo que acontecia para acelerar nossa pulsação era os dois partirem para uma “roleta russa”: uma bala apenas no tambor do revólver, colocado contra a cabeça, e cada um apertava o gatilho até que acontecesse o disparo.

Pois meus alunos contaram a forma “atualizada” da roleta-russa: colocar-se com o carro acelerado a menos de uma quadra, preferencialmente na madrugada, e aguardar a sinaleira. Quando mudar do amarelo para o vermelho soltar o freio e tentar ultrapassar antes que outros carros atravessem a pista. Muitos conseguiram. Outros já perderam a vida.

Infelizmente, nos damos conta de que apenas dizer o que pensamos não é suficiente. Uma mãe testemunhou que fez o possível, “dando do bom e do melhor”. Para isso trabalhava todo o dia fora de casa e os filhos tornaram-se consumistas e exploradores, queriam tudo sem dar nada em troca e não tinham, no lar, alguém para acompanhá-los. Talvez aí esteja uma das respostas: não precisamos de todos os badulaques que tentam nos vender. Estudos comprovam que se pode fazer uma boa formação até os 11 anos, enquanto a criança está sob influência da família. Depois disto, é rezar para que a semente tenha sido boa.

Queria entender o que se passa para ajudar meninos e meninas a encontrarem seus caminhos. Ser capaz de blindá-los com amor e carinho, afastando-os dos perigos que rondam as ruas. Ajudá-los a ver que nada está perdido quando as pesquisas demonstram que viver em família, ter amigos e ter fé é absolutamente saudável. Para que, ao invés de uma roleta-russa, nos momentos difíceis, possam pedir apenas um instante de atenção.