O sentido da aventura humana


Em sala de aula, um texto nos fez refletir a respeito da racionalidade científica e a irracionalidade das formas "não-científicas" de produção. Em contrapartida, hoje, existe a busca  de fundamentos (até pelos cientistas!)  para uma outra realidade - com o nome que lhe dermos: mitológica, religiosa, filosófica – que se torna, no mínimo, provocador.

 Paul Valéry, já conclamava que "a vida é uma desordem que funciona". Acrescentaria: e que encanta por funcionar em meio ao que, muitas vezes, classificamos de "caos".

Vai mais longe e é enfático ao defender que podemos ter divergências em muitas áreas, mas "de uma coisa não podemos abrir mão: de nossa liberdade. Porque, sem ela, não teremos condições de tomar consciência do sentido da aventura humana".

Depois de citar Paul Valery, conclui: "precisamos fazer dessa 'desordem' algo capaz de criar harmonia e beleza, pois ela pressupõe que tenhamos os olhos fixos em nosso destino comum".

Edgar Morin avança quando afirma que "a descoberta de que a ciência não é totalmente científica é, a meu ver, uma grande descoberta científica". Por quê? Exatamente porque estão balançados os dois fundamentos que davam a segurança ao conhecimento científico: a objetividade dos enunciados e a coerência lógica das teorias.

Morin reflete a respeito da complexidade, da objetividade, das forças de desenvolvimento e das forças de coerção (controle). O primeiro nos é colocado na dificuldade de termos claros conceitos a respeito da ciência, do conhecimento, concepção do mundo e a nossa relação com este mundo, "para nos concebermos a nós na relação com os outros e para nos concebermos a nós mesmos que é, afinal, a mais difícil de todas".

Já a objetividade é tratada como um "consenso sociocultural e histórico da comunidade/sociedade científica". E faz uma bela imagem: "a cientificidade é a parte imersa de um icebergue profundo de não-cientificidade".

Quase trágico, aborda as duas últimas, onde se preocupa com a questão do "controle": "na hora presente, no plano das possibilidades, o único controle possível é a morte".

Avança, então, para a crise, que pode propiciar um momento de tomada de consciência, recolocando-nos na posição de quem deseja ter esperança de encontrar uma saída (muito vago, para o meu gosto!).

A saída parte de uma reflexão, tomada de consciência, gerando ação.

Mesmo citada de passagem, creio que aponta a solução quando diz que "passa a ter vez, a filosofia, até então considerada como um discurso vazio". Desculpem a manipulação de sentido. No texto, não é este. Mas é esta a verdade.

Se a intenção era de gestarmos uma ponte sobre o que a sociedade nos apresenta como conhecimento, os textos apresentados foram mais longe: inculcaram a crise, no sentido de desafio para a busca. Ficamos "encantados" diante de um novo mundo, seja ele de Sofia, ou não.

Encantados, ou não, a epistemologia, assim colocada, vem nos dizer que o conhecimento é um eterno poço, em busca de sôfregos e sedentos andarilhos, dispostos a, saciada a sede, repostas as energias, voltar ao caminho. E ele se faz na concretude do mundo, onde somos parte integrante do processo de mudança. Muito vago? é possível. Porque o meu processo de mudança vai ser diferente daquele vivido por cada um de vocês.

A saída é a permanente busca. O contrário, com certeza, é a morte. A morte intelectual, bem pior que a física, porque capaz de manter zumbis, incapazes de sonhar e, ao não sonhar, incapazes de antever, diante das dificuldades que o sentimento de nostalgia que vem com a noite vai ser compensado pela energia que brota com o nascer de um novo dia.