Sinal vermelho


Um desenho animado clássico do meu tempo de infância mostrava um pacato cidadão – o Pateta de Walt Disney – deixando sua casa com um cuidado, até mesmo exagerado, no trato com uma planta ou com um pequeno animal que passava por seu jardim. Quando entrava em seu automóvel, este pacato cidadão transformava-se num “monstro”: passava a fazer valer a lei do mais forte. E o mais forte era ele, pois dirigia um carro.

Desculpem os amantes da velocidade, mas no tráfego diário, não consigo ver que existam bons motoristas. Existem motoristas cuidadosos, ou não; atentos, ou desatentos; dispostos a cumprir com as normas do trânsito, ou buscando dar um jeito para ganhar segundos que não compensam o stress e a angústia.

Um amigo comentava que na avenida Bento Gonçalves, próximo ao Parque do Sesi, uma moto ultrapassou-o, carregando uma jovem na garupa e, no meio, uma criança. E ele já estava a 80 km por hora. Tive que registrar que ele já estava errado, pois o tráfego em nossas ruas é de, no máximo, 60 km por hora, já que não temos nenhuma via expressa.

Motorista bom é aquele que faz manobras, muitas vezes arriscadas, em espaços próprios – autódromos e seus similares. Mas não nas ruas. Em especial, aos fins de semana, quando muitos saem com veículos que ficaram guardados nos cinco dias anteriores, acontece um festival de “habilidades”: são cruzamentos ultrapassados, quando o semáforo está vermelho; sinalização não respeitada, por descuido ou por fazer valer a lei do jeitinho (que o outro se dane!) e invasão de preferencial, em ruas e em rótulas.

Sem falar que as boas maneiras, literalmente, acabam ficando em casa. Já fui testemunha de que reclamar de motorista agindo irregularmente pode custar palavrões, dedo em riste, ou mesmo agressões. O que era para ser rotina, acaba nos surpreendendo. É o caso de um gesto de mão do motorista indicando que podemos passar à sua frente, numa faixa para pedestres (neste caso, a preferência já é nossa) ou no cruzamento de um dos espaços de caminhada, na cidade.

Duas ações, em especial, causam preocupações: A dos “motoristas de final de semana”, como classifica o Fernando. De pacatos cidadãos, vestindo o carro, parecem vestir também uma armadura, a prova de qualquer teste.

E o mau exemplo: quem acredita que pode entrar numa preferencial porque o motorista que está no sentido certo vai ter tempo de frear e esperar que ele se acomode na rua, esquece que outro pode vir atrás e sequer olhar para ver que já há um veículo vindo ao seu encontro. Estava num carro quando isto aconteceu, gerando um ranger de freios e maldições. Só o que ouvi de quem dirigia foi: “panaca”.

Somos maus motoristas. Não é suficiente que tenhamos um trânsito disciplinado. E não o temos. Motoristas tranqüilos. E não o somos. Usuários conscientes de que o veículo é apenas um veículo, um meio de transporte. Nem prova de status e sequer de masculinidade.

É então que tenho que dar razão a um amigo que sempre afirma: a parte mais sensível do corpo é o bolso. Nosso aprendizado vai ter que partir de penas que impeçam motoristas despreparados de estar no trânsito, mas que, também, sejam punidos, rigorosamente, inclusive com multas, pelos desmandos que cometem. Pode ser esta uma forma de se ter, num final de ano, menos mortes do que o quadro dantesco que se nos apresenta, numa época em que deveríamos festejar nascimento, vida nova. E o que vemos são as seqüelas da imprudência e da falta de humildade ao dirigir.