Sinto muito, meu amigo...


Um livro recolhido. Uma bibliografia censurada. É possível utilizar todos os argumentos para dizer que não, mas o acordo feito na Justiça entre o cantor, a editora e o autor da obra “Roberto Carlos em Detalhes” foi uma restrição à liberdade de expressão, que já se julgava superada. Não diria como Paulo Coelho que foi uma “atitude infantil”, mas, uma atitude infeliz, que deixa triste quem aprendeu a admirar o cantor. Recentemente, não conseguiu produzir canções como nas décadas de 70 e 80, autênticos clássicos da música popular.

O livro conta a trajetória percorrida pelo cantor, considerado por uns o mais romântico que o Brasil já teve e, para outros, apenas meloso. Mas é assim que se dá com a figura que se torna pública: o seu direito à privacidade fica restrito, querendo ou não querendo. No entanto, o que é dito no livro não o desmerece e, nas partes “mais pesadas”, não o envolve, mas narra parte da história da Jovem Guarda, já contada por muitos outros livros.

O rei pisou na bola. Ao tomar conhecimento do conteúdo por outros, ler partes e dizer que não gostou e investir contra o autor, fez o que a maior parte de seus fãs não esperava. Se o livro fosse vendido, teria uma trajetória normal e, em pouco tempo, acabaria esquecido. No entanto, agora, fica como uma mancha na bibliografia de Roberto Carlos, pois se prestou para um ato de censura.

É de Martin Niemöller, 1933, uma pequena história que diz: “Um dia vieram e levaram meu vizinho que era judeu. Como não sou judeu, não me incomodei. No dia seguinte, vieram e levaram meu outro vizinho que era comunista. Como não sou comunista, não me incomodei. No terceiro dia vieram e levaram meu vizinho católico. Como não sou católico, não me incomodei. No quarto dia, vieram e me levaram. Já não havia mais ninguém para reclamar".

Não há como admitir a censura, que não significa a falta de critérios éticos e morais para se estabelecer regras para a convivência. Mas quando quem pode mais faz o que foi feito, abre a porta para um período da história em que se caçaram bruxas e acenderam fogueiras para a queima de livros (mais de dez mil exemplares serão “reciclados”, o que é, apenas, um eufemismo).

“Sinto muito, minha amiga” é a frase que inicia uma das últimas canções ao seu velho estilo. Aqui é a expressão de tristeza por um detalhe que avilta uma história e deixa como lição a necessidade de que, hoje, não seja admitida a restrição a qualquer tipo de liberdade, desde que usada com absoluta responsabilidade.