A sociedade do espetáculo


Está caindo de maduro que algum aluno mais atilado, em tempo de preparação do seu trabalho de conclusão de curso, olhe com atenção para o que está acontecendo em São Paulo, na morte da menina Isabella, e analise o que faz a mídia, em especial a televisão, quando quer espetacularizar um fato. Os indícios apontam o pai e a madrasta como responsáveis, mas a cobertura dos canais de televisão já superou em muito o limite entre o fazer jornalístico e a invasão de privacidade.

Havendo menores envolvidos, toda a prudência é recomendada. Mesmo assim, em alguns dias, professores despreparados e pais interessados em aparecer, deixaram de lado o bom senso, permitindo filmagem de atividades em que crianças lembravam a amiguinha.
Mas os meios de comunicação foram mais longe e, se a polícia não cumpre seu papel de investigador e fiscalizador efetivo, a mídia o faz e marca de cima para não deixar que os supostos responsáveis escapem.

A cada telejornal, a carga dramática é imensa. Sei de pessoas que trocam de canal, especialmente pela manhã, quando estão tomando café, e preferem algo mais ameno que adversidade sendo servida à mesa, acompanhada de detalhes sórdidos e comentários fúnebres.

Num país onde a desgraça acabou sendo banalizada, é emblemático que se foque este tema e se esqueça o "infortúnio nosso de todos os dias". Pois ele existe, talvez afastado demais dos centros de classe média, mas onde muitas "isabellas" perdem, no dia a dia, muitas "vidas", sem fazer parte da pauta nacional.

No entanto, uma charge publicada em jornal da capital levou-me a pensar que a população tem reações que nem a mídia consegue explicar. Mostrava um personagem, na janela de um apartamento, jogando seu aparelho de televisão fora. Meio apelativo, humor pesado, mas uma realidade, que, no meu caso, foi caracterizada quando, descendo para tomar café, às 8 horas, vi que, ao invés dos tradicionais programas de notícia, assistiam a um filme do Mazzaropi!

Comprova que o excesso de exposição a determinadas notícias acaba cansando e as pessoas buscam alternativas. O festival de cobertura da televisão obrigou as demais mídias a irem atrás e ao invés de informação, virou "entretenimento". Pena é que sempre há quem queira assistir, pois existe aqueles que gostam de ver gotejar sangue das páginas de jornal. Não é a maior parte da população: esta tem vontade de fazer como o personagem da charge, ou assistir a um filme do Mazzaropi da década de 50.