Somos falsinhos


O “jeitinho brasileiro” é uma marca que, infelizmente, está se tornando parte da nossa definição como sociedade. Uma expressão ilusória, pois, mesmo parecendo fruto de criatividade e inventividade, não nos favorece, pelo contrário, torna explícitas algumas das nossas contradições.

O trânsito é um dos casos. Todos nós conhecemos as regras mais elementares e civilizadas do convívio entre veículos e pedestres. No entanto, esta é uma das áreas em que, não havendo um guarda de plantão, vale a lei do mais forte, isto é, o carro. E se for flagrado, há sempre alguma desculpa: a pressa, o descuido, ou até a “patetice” do pedestre!

Recentemente, uma pesquisa revelou o que a população pensa a respeito dos políticos. Um percentual alto apontou para a existência de corrupção neste meio. No entanto, a surpresa ficou por conta da pergunta em que era questionado de que forma agiria se estivesse no lugar: também um percentual altíssimo disse que faria a mesma coisa.

O trato de animais de estimação é outro ponto. Todos conhecem a melhor forma de conduzir seus cães, gatos e cavalos. No entanto - dou minha palavra - embora em programas de entrevistas sempre vejo as pessoas encherem a boca para dizer que, em passeios, se deve levar o famoso saquinho para as fezes dos animais, nunca, repito, nunca vi alguém recolhendo os dejetos em parques, praças e ruas!

Os cuidados com a pele também entram no regime dos “falsinhos”. Uma regrinha elementar: o sol bom para a pele é aquele que vai até as 10 horas e, depois, a partir das 16 horas. Estas recomendações são dadas em horários dos noticiários, ao meio dia, com imagens ao vivo das praias. Qual é o pano de fundo? O mar, a lagoa, a praia sempre cheia de gente, muitos já vermelhos que nem um camarão!

Podemos elencar muitas outras contradições entre o que se entende como certo – o discurso – e o que se faz na prática. Nos Estados Unidos foi adotado um programa chamado “tolerância zero”, para a segurança. Pois precisamos de programas semelhantes em outras áreas, que incluam práticas pedagógicas com elementos básicos do tipo: gentileza, solidariedade, atenção que sai da volta do próprio umbigo.

Discursos podem até inflamar durante algum tempo, exemplos deixam marcas, que podem ser simples como o rapaz que recolheu um papel de bala da calçada e devolveu àquele que o tinha atirado ali displicentemente: “este papel caiu da sua mão”. O recolher envergonhado com uma grande lição. Para que dizer mais?