Quando um autor procura por um texto


 

Tenho uma amiga que posso classificar como meu alter-ego. Para que compreendam: ela, normalmente, sai do trivial, "gostei, achei interessante", ou coisas do gênero e detalha a crítica a respeito dos meus textos. Dos últimos, tem dito que são basicamente a mesma coisa e que, entre a apresentação, no primeiro parágrafo, e a conclusão (ao fim e ao cabo, como diriam alguns políticos), tenho mudado diametralmente de assunto. Para amenizar, ela me diz que sempre há algo de novo, nem que seja uma nova angulação do tema.

Para que minha moral não fique muito em baixa, resolvi recordar Chacrinha, quando dizia que, neste mundo, "nada se cria, tudo se transforma". É mais ou menos o que digo a meus alunos de redação – e alguns amigos mais teimosos que teimam em deixar a preguiça tomar conta – que, em texto, é necessário, primeiro, aprender a fazer bem o arroz com feijão. Quando o ponto de cozimento estiver adequado, o tempero na medida certa, então pode-se pensar num bife a milanesa.

Porque voltar a este assunto? Acontece que uma rede de televisão resolveu investir na necessidade de leitura e, além das campanhas institucionais, tem pautado reportagens que estão dizendo o óbvio: criança que lê – inclusive os tradicionais gibis – com certeza vai ter o seu desenvolvimento intelectual estimulado. E se, além disso, ela for incentivada a escrever, começando por pequenas peças, brincadeiras que possam ser representadas com seus coleguinhas, passando pela doce e saudosa fase do diário pessoal, está bem encaminhada para se "autorizar".

Aqueles alunos que já têm propensão para um texto mais literário merecem uma atenção especial, para que não abandonem as regras básicas da clareza de raciocínio e domínio do idioma, texto claro e direto, desenvolver-se por meio de encadeamentos lógicos, ser exato e conciso, estar redigido em nível intermediário, ou seja, utilizar-se das formas mais simples admitidas pela norma culta da língua (como ensinam os bons manuais de redação).

A preocupação é com os demais. Vindos de famílias com baixos índices de leitura, com pouca assistência para o estudo, jogam para as escolas a tarefa de educar. E aí fica difícil. Construir um bom texto depende de muitos "quilômetros" de leitura, de escrever e de humildade para apresentar seu trabalho para a crítica. É um treinamento. Um doce treinamento, que exige persistência, humildade e convicção de que se gosta de escrever não somente por diletantismo, mas, se não for por outro motivo, apenas porque pode se alertar a outros que existe um ângulo diferente daqueles que estão sendo vistos, convencionalmente.

Já houve gente trocando reinos pelos mais diferentes objetos. O autor troca toda a sua segurança do dia a dia por um texto publicado que repercuta em comentários. Preferencialmente, com algo mais do que "vi teu texto no jornal – gostei do teu artigo". Eu já conto com a minha amiga. Não contei para ela, mas tem alguns "comentaristas" que dizem que meus artigos são para serem ouvidos, não lidos. Claro que fiquei bobo. Pena é que eles acabaram não dizendo se isto era bom ou ruim. Vou ficar com a primeira opção.