Um diploma cidadão


Surpresa. E revolta. Não poderiam ser outros os sentimentos, ao receber o veredicto do Supremo Tribunal Federal, por oito votos a um, de que a profissão de jornalista não precisa mais ser exercida apenas por aqueles que alcançaram diploma de curso superior.
Com uma argumentação que beirou o deboche, os ministros retiraram a ponta do iceberg, pois abrem as condições para que outras profissões, na área de humanas e sociais, também sejam liberadas de formação superior, ou qualquer tipo de formação.

Já argumentei, anteriormente, que posso atuar em Psicologia ou no Direito. Mas não é só, por conhecimentos adquiridos, também posso lecionar na área da Sociologia, Filosofia, História, Geografia... É pena que a sociedade não tenha se dado conta de que, mesmo que a formação não seja a melhor que almejamos, ainda é aquela que forma adequadamente o profissional para a sua atuação em Jornalismo. Podemos questionar, alimentar a discussão e fazer mudanças em currículos, mas entregar à sanha de empresários a definição de quem é competente é muito perigoso.

Ao que tudo indica, exatamente por sua formação, o Jornalismo passou a ser perigoso para o Poder Judiciário, pois resolveu escancarar as suas entranhas e mostrar que naquele poder também foram encontrados escândalos. Passando pelo fato de que o Poder Executivo e o Poder Legislativo já vinham sendo denunciados, restou uma mesquinha sensação de vingança contra o chamado "quarto poder".

Entre os muitos argumentos que carecem de solidez, está o de que em países da Europa e da América do Norte já não existe mais esta exigência. Como toda a comparação, esta também é manca. Não estamos naquelas duas áreas do planeta onde a existência de conselhos fortes filtra a entrada de despreparados e mal-intencionados na profissão.

Perdeu o processo democrático. Os homens públicos que fizeram isto esqueceram que são pagos pelo povo para defender os valores e os recursos dos cidadãos e não os próprios. Abriu-se uma porteira que dificilmente será fechada e que lançou o caos à regulamentação da maior parte das profissões.

Comparando, vejo que no exercício do Jornalismo não se enriquece. Somos idealistas por natureza e dificilmente cumprimos “jornadas de trabalho”, mas nos tornamos jornalistas 24 horas por dia. O que me deixa mais perplexo, ainda, pois enfrentamos situações de risco, perigos constantes e temos a capacidade de denunciar "cadáveres insepultos", o que, por si só, mostra que o diploma do jornalista é um diploma cidadão.