Um prato de comida


Creio que ainda não nos damos conta da importância que assumiu a discussão a respeito da produção de alimentos no Mundo. Problemas que, esperávamos, somente iriam se acirrar pelos idos de 2020 - crendo que até lá encontraríamos soluções - estão batendo à nossa porta. E exigindo soluções drásticas. Em meio ao diagnóstico de que a fome já se faz presente em amplas áreas, agora também vemos que países em desenvolvimento e até desenvolvidos começam a ter problemas para conseguir alimentos suficientes que atendam à sua população.

Neste meio, uma briguinha boba agita os bastidores entre os Estados Unidos e o Brasil. Do lado de lá, a produção de milho para gerar biocombustíveis. Do lado de cá, as plantações de cana, com o mesmo objetivo. E a acusação mútua de que eles estão desperdiçando alimentos, enquanto nós não fazemos o mesmo. Meia verdade. Os Estados Unidos podem ser acusados de desviar alimentos para produzir combustíveis, mas nós também estamos no mesmo caminho, pois a cana acaba utilizando áreas agriculturáveis e, se produzida, também pode servir de ração animal.

O Brasil não pode perder a sua vocação natural: em pouco tempo, o alimento terá o mesmo valor que o combustível, de qualquer tipo, servindo de moeda no mercado internacional. E somos privilegiados por natureza, portanto, plantando com equilíbrio e respeitando o meio ambiente poderemos ocupar um espaço que nenhum outro país tem condições de ocupar.

As notícias recentes dão conta de safras de grãos que superam as expectativas. No entanto, o que temos visto nas feiras, mercadinhos e mercados é que os preços estão aumentando. Esta incongruência se deve ao fato de que, no caso do arroz, por exemplo, tendo tido duas ou três safras anteriores ruins, os produtores querem, agora, recuperar suas perdas.

Não é possível. Embora possa se aceitar que o mercado regule a produção, no caso de alimentos não é somente uma questão de oferta e de procura, mas de atender a uma demanda social e, quando esta acontece, paciência, devem falar mais alto os valores sociais. O que não se pode admitir é que a produção de combustível ou os interesses de alguns, muitas vezes para atender a interesses de pequenos grupos (veja o caso da utilização e consumo de combustível pelos carros particulares), sacrifique parcelas da população. Elas não estão pedindo acesso a bens supérfluos de consumo, mas ao elementar para a própria vida: um simples prato de comida.