Uma dúvida de fé


“Onde estava Deus, naqueles dias?” A frase dita pelo papa Bento XVI para aqueles que estavam presente na visita ao campo de concentração de Auschwitz, na Alemanha, não causou surpresa.

No entanto, no dia seguinte, quando ganhou as manchetes do mundo inteiro, retirada de seu contexto, transformou-se numa guilhotina verbal, causando indignação e comentários de muitos “propalados analistas”.

É o que se chama de “informação fora do contexto”. Pinçou-se uma frase que venderia manchete e não foi dado destaque para o que foi dito a seguir: “essa pergunta tem de se transformar também em um grito para a humanidade, para que não gere mais violência”.

Bento XVI, embora sem o carisma de seu antecessor – João Paulo II - e sem a capacidade de gerar fatos para a mídia, teve a coragem de abrir o coração para um dos grandes males do catolicismo: a dificuldade de reconhecer seus erros.

Hoje, com certeza, é muito fácil fazer uma avaliação do que a Igreja Católica deixou de fazer na ocasião em prol daqueles que foram massacrados pelos seguidores de Hitler. No entanto, cada vez mais, historiadores mostram que o pecado da omissão estava disseminado. Governos, religiões e organizações foram incapazes de defender integrantes de etnias que tiveram aquele horroroso fim.

Hitler foi testando a paciência das potências mundiais, atravessando fronteira a fronteira, e cometendo crimes em que a humanidade, ao menos num primeiro momento, preferia não acreditar.

Que a Igreja Católica tem sua parte na culpa, não resta a menor dúvida. Mas só ela? E os outros? Começando pelos países do primeiro mundo, incluindo as organizações que deveriam dar guarida às populações perseguidas, até os cidadãos ditos “conscientes”, houve o pecado da omissão.

Uma omissão que tem se mostrado cíclica ao longo da história. Foram os judeus, mas também os ciganos e os homossexuais, na Alemanha. Os negros enquanto durou o vergonhoso tráfico negreiro e a sua subjugação num continente que convive com males que tiveram sua origem no colonialismo e na escravidão.

Não há orgulho em se reconhecer que errou. Mas quando acontece mais fácil se torna corrigir o rumo. Diante dos personagens de hoje, onde assistir a um noticiário se tornou um jogo para saber quem está dizendo a verdade, é preferível curvar-se diante da História e clamar por Deus. O mesmo Deus que ressuscitou o Homem que pouco antes Lhe havia dito: "Pai, por que me abandonaste?"