Uma geração egoísta


A discussão do momento envolve a produção de energia, em especial a que é baseada na agricultura, preocupada em aumentar o volume do cultivo de elementos que lhe dão suporte e não com a sua racional utilização. O petróleo é uma das fontes para a qual se buscam alternativas, através dos biocombustíveis. Mas quem disse que a solução é apenas aumentar as áreas de plantio? Não será o caso de utilizar de forma responsável o que temos, assim como a energia elétrica, que se esvai de forma perdulária e insensata?

É o caso da produção de carros, aumentando sem termos espaço suficiente para o uso de todos. Os combustíveis não vão existir para sempre, assim como não há infra-estrutura de cidade que agüente a presença assustadora de veículos particulares em vias públicas. Em duas ocasiões – em Pelotas e Porto Alegre – contei o número de pessoas que circulavam em automóveis. Na média, a cada dez veículos, nove eram ocupados apenas pelo condutor, enquanto um tinha mais um ou dois passageiros.

Se o “ouro negro” (petróleo) está com os dias contados, o mesmo não acontece com dois elementos em que o Brasil é um dos campeões em desperdício: a água e os alimentos. No primeiro caso, ainda não foram medidas adequadamente as nossas reservas (infelizmente, praticamente todas sob a ameaça de poluição) na relação com o mundo, onde muitas regiões já lhe dão mais importância do que o petróleo.

Cientistas alertaram o Brasil para investir na produção de alimentos e preservação das águas, porque este será o novo “ouro” do planeta. Mesmo sendo politiqueira a afirmação de certas lideranças de que é “um contra-senso estimular a produção de biocombustíveis em áreas que deveriam produzir alimentos”, precisamos entender que o princípio é correto, embora nebulosos os motivos pelos quais aqueles que tiram o petróleo da terra usem tal alegação.

Não creio que o aumento da produção de biocombustíveis seja a solução, inclusive, para nossa balança comercial. A produção de comida e a preservação de nossos mananciais podem, em curto espaço de tempo, render o mesmo, ou mais, com uma forma “politicamente correta” de uso. Não temos muitas alternativas: teremos que fazer uma mudança de perspectiva, pois estamos olhando o lado de satisfação do indivíduo, em detrimento da sociedade. Vamos ter que fazer sacrifícios, muitas vezes pessoais, necessários a fim de que não sejamos marcados pela História como a geração que sucumbiu ao seu próprio egoísmo.