Um amor muito especial


Foi moda entre os jovens, na década de 70, uma frase de um filme em que era dito: “Amar é nunca ter que pedir perdão”. Confesso que aquela frase sempre me incomodou, até porque, vivendo em uma sociedade onde tudo está por ser construído e nossa sensibilidade, muitas vezes, está à flor da pele, amar é sempre estar disposto a pedir perdão. E como!

Mas sempre ficou, para mim, que esta frase encaminhava para uma outra reflexão: mesmo que muita gente diga que é necessário constantemente reafirmarmos nosso amor, na verdade, isto não precisa ser feito com palavras, que repetidas à exaustão, muitas vezes ficam esvaziadas do seu sentido.

É com gestos, é com carinho, é com o olhar que se partilha o amor.

E quem, mais especialmente, é capaz de fazer com que compreendamos este sentimento que nos envolve, cativa e muitas vezes nos perturba com a sua intensidade?

A pessoa que chamamos de “especial” é, neste caso, o portador da Síndrome de Down.

Tenho o privilégio de conviver com o Edinho a um quarto de século. Durante este tempo, sou testemunha do seu amor que se expressa em gestos de ternura, afago, olhar. E, muitas vezes, da sua repreensão. Quando espicha o “tiiiiiooooo”, sei que vem um olhar atravessado, como quem diz: “que história é essa?”.

É neste momento que me sinto privilegiado. Convivo com uma pessoa que deve ser muito especial para Deus. Por um simples motivo: Deus tem um coração estranho e é capaz de fazer com que tenhamos ampliado algum de nossos sentidos quando outro nos falta.

Qual foi o sentido ampliado para os “Edinhos” da vida? O coração! Deus os ensinou a amar mais, muito mais. Capaz de seduzir, mesmo aqueles que pensam, num primeiro momento, em rejeitar um portador da Síndrome de Down, ao invés de entendê-lo como “especial”.

Então, como amar “é não ter que pedir perdão”? O tempo a se utilizar com um Edinho não é o mesmo que se utiliza com outras pessoas. Pois, que bom. Este é um tempo muito bem gasto, porque se gasta com alguém que retribui com muita facilidade.

E não era também diferente aquele menino que nasceu em Belém e fez exatamente a mesma coisa: cativou por gestos, afagos e olhares carinhosos e cúmplices? Neste “especial”, mais facilmente pode se ver: Deus existe e vive de um jeito... Muito especial!