Uma página em branco


A poesia toma liberdades que acabam, quase sempre, em sonhos. Nela não há a preocupação com o factual, afinal escrever poesia é fazer e refazer mundos em perspectivas que, na maior parte das vezes, não têm nada a ver com a realidade, mas fazem da realidade um trampolim para atravessar e vivenciar outras dimensões. Foi esta a idéia que me ficou quando alguém falou na necessidade de tomar “uma página em branco” para escrever o seu futuro, uma vez que desejava mudanças radicais em sua vida e, partindo de algo absolutamente novo, tomar as rédeas de seu destino, escrevendo-o como julgasse melhor.

Perfeita a imagem, imprópria a idéia. Ficaria estranho e reclamaríamos na livraria se, lá pelas tantas, em meio a uma boa história, surgissem folhas sem nenhum registro, nada escrito ou desenhado. Na vida acontece algo parecido: não encontramos “páginas em branco”, onde se começa do nada, mas “páginas viradas”, pois já existem anteriores, preenchidas com nossa história, que não se pode negar, mas também não se pode deixar que seja condicionadora de nosso futuro. Teóricos do texto dizem que ninguém conseguiria entender, mesmo uma bela mensagem, se ela fosse dita com todas as palavras sendo novas para o leitor. Precisamos de referências para entender a vida e, sem negar o que passou, consolidar nosso futuro.

É preocupante quando as pessoas querem, na virada do ano, assumir mudanças que não foram planejadas, refletidas, tomadas no afã das chamadas “boas intenções” (iniciar um regime, deixar de beber, não ser violento, fazer aqueles trabalhos que deixamos para trás, etc.). Elas serão vencidas pela rotina que se estabelece quando as festas acabam e passamos a viver o dia a dia de um novo ano.

A única “página virada” é a que é fruto da nossa história, das nossas reflexões e das nossas relações. Esta construção é complexa, exige, muitas vezes, tentativas repetidas, com acertos e erros, até que possamos alcançar o que almejamos. A vida não funciona por fórmulas matemáticas e as mesmas experiências, feitas por pessoas diferentes, vão ter como conseqüência resultados diversos.

A chegada de um Ano Novo é o estabelecimento de novas expectativas. Gosto muito da imagem que diz que estamos sempre querendo alcançar um horizonte, mas quando o alcançamos é preciso colocar um novo em perspectiva para que não percamos o próprio sentido de existir.

Que tenhamos um feliz 2008!!!