Uma palavra e uma canção


Estivemos, semana passada, em Pinheiro Machado, participando do Encontro de Letras que se propunha discutir “a leitura na construção do conhecimento”.

“Estivemos” é porque tive o privilégio de compor uma mesa com o professor Cilon Rodrigues, em que deveríamos falar sobre o escritor, o leitor e a leitura.

Foi agradável refletir sobre a necessidade de valorizar a palavra e que não apenas seja dita. Mas também há outra faceta: o quanto é preciso incentivar a leitura, forma consolidada de fazer com que se adquira vocabulário, aprenda novas construções textuais, se faça uma higiene mental e se possa viajar pelo mundo imaginado pelo escritor.

Dizia o professor Cilon: “eu preciso do olhar do escritor para poder olhar o mundo”, mas “também o escritor precisa do leitor para que tenha alguém que olhe o mundo pelo seu olhar”.

Perfeito. Mas ainda havia uma lição: quando falava da necessidade que temos de chegar ao sentido da palavra, lembrava que ela não se expressa apenas no dito, mas que existe toda uma gama de sentimentos que pode repassar e, mais, o mundo da linguagem não-verbal, onde afloram sentidos que, muitas vezes, não são ditos.

Antes da palestra, pensava nisto quando um grupo de jovens vindos de Candiota fez uma apresentação de canções em que defendia a solidariedade e a necessidade de se buscar a paz.

Vestidos completamente de preto, havendo apenas as mãos recobertas por luvas brancas, desenharam “cenários” e indicaram “caminhos”, ao deixar que seus corpos expressassem uma das mais sublimes formas de encontro: a dança.

Mais ainda. Os cerca de 20 jovens eram portadores de alguma necessidade especial e fizeram de cada movimento um superar-se. Buscavam no olhar e no corpo do outro o sentido do seguimento de cada canção. Sem saber, ficava claro que eles eram a canção! Uma canção em que frações de segundo entre um gesto e o outro era uma insignificância frente ao sentido que davam ao tempo e à palavra!

E o sentido era exatamente este: não ter um único significado. O dançar dos jovens, as reflexões sobre a palavra nos levam a um mistério: precisamos do silêncio. Aquele mesmo silêncio que antecede a qualquer atividade, porque é reflexão e oração.

Foi o que fizeram, nos muitos momentos em que aguardavam a música. Porque, só então, podiam reunir em um só ato uma palavra e uma canção.