Uma verdade histórica


Qualquer um de nós já viveu fatos em que o drama chegou perto da comédia (nem falo em ridículo), assim como situações cômicas, que beiram a tragédia. Um amigo dizia que “não há nada como um bom velório” e contava a situação passada, na madrugada, depois que restaram apenas alguns familiares e amigos na capela mortuária, já fechada por questões de segurança. O grupo se reuniu num canto relembrando histórias, a maior parte hilárias, com o riso curto, em princípio, mas depois solto. Num determinado momento, a viúva chegou próximo ao finado e disse: “se o fulano pudesse, também estaria rindo conosco!”

Mais engraçado (pode-se usar esta expressão?) é quando inimigos declarados, ou aqueles que consideravam o recém defunto no mínimo um “aloprado”, chegam com olhar consternado e afirmam: “mas o fulano era tão bom!” Interessante: bastou virar o cabo da boa esperança e se pode mudar até de caráter! Posso citar muitos casos de figuras públicas: políticos que passam a ser “a última grande liderança” (esquecendo que “última” corresponde à derradeira, mas em seguida haverá uma nova “última”); liderança educacional, contestada em vida, mas que assume a aura de referência; e figuras religiosas, de quem se conhecem os pecados, mas, morta, praticamente inicia a canonização.

Minha preocupação é que, se tratamos assim a história próxima, o que não fazemos com a mais remota? É conhecido o dito: “a história é escrita pelos vencedores”, portanto, sabemos apenas parte dela. Mas ainda há aquela que foi maquilada: pesquisadores apontam dom Pedro I saindo detrás de uma moita, com fortes problemas estomacais, quando nos tornou independentes de Portugal; como em todas as guerras, a dos Farrapos tinha, na população de frente, a defesa dos princípios libertários, mas por trás estancieiros desejando benesses do governo imperial; e ainda temos dificuldades de entender o período sombrio da ditadura militar onde nove em dez brasileiros, passada a Copa de 70, acreditava no slogan: “Brasil, ame-o, ou deixe-o”.

“Devemos aprender com a História”. A frase é bonita, mas parece que a lição entrou por um ouvido e saiu pelo outro, pois, hoje, pipocam guerras regionais, mesmo com todas as provas de que seus interesses são apenas econômicos e que investir no desenvolvimento destes países seria mais barato do que guerrear. Em meio a tantas mudanças, falta usarmos uma antiga receita: o velho e saudável bom senso. Infelizmente, é o que não se compra, mas pode ser o diferencial entre a tragédia e a farsa, para se reconhecer uma verdade histórica.