Um capital diferente


Nas muitas conversas que tenho com grupos de jovens e estudantes de nível superior ouço algo que é semelhante ao discurso que seus pais já faziam: o grande capital que se pode deixar para futuras gerações é o estudo, o conhecimento. Em princípio, não duvido, nem discordo. Mas questiono: que estudo, que conhecimento? Afinal, não há mais sentido naquilo que se chamava de “conhecimento enciclopédico”, em que se acumulavam informações que, mais dia, menos dias, “poderiam ser úteis”.

Então o que vale, na atualidade? Creio que, primeiro, é preciso dar uma olhada para o mercado e ver que já existem sinais de mudanças. Por exemplo, na atualidade, é comum que as empresas solicitem que se agregue ao currículo as informações sociais da vida do candidato, inclusive aquelas em que atuaram no papel de líder – como de grupos de jovens – ou tiveram atuação voluntária. Outro exemplo é que, quando passam pelos primeiros treinamentos, são incentivados a buscar soluções em conjunto com seus colegas, colocando suas virtudes a serviço do coletivo e não mais valorizando aquela figura mágica capaz de tirar da manga uma carta em que se encontre a solução.

O que está faltando? Que este mesmo jovem, antes de se desesperar diante da dificuldade que encontra em achar seu lugar no mercado de trabalho, busque e receba informações. Vejo alguns bons serviços que encaminham meninos e meninas para lugares onde universidades, centros tecnológicos e de formação, organismos do governo indicam a forma mais simples de obter documentos de identificação até bolsas de estudo de segundo grau e ensino superior, por exemplo.

O que pode parecer óbvio para muitos, de fato, não o é. Impressiona o quanto os nossos jovens, dispersivos por natureza, deixam passar, literalmente por debaixo de seus narizes, muitas oportunidades porque não foram capazes de assimilar uma informação elementar, que lhes propiciaria uma bolsa ou uma possibilidade de trabalho como aprendiz.

Mas, então, que conhecimento? Um conhecimento contextualizado, capaz de ajudar a entender e atuar melhor, marcado fortemente pela sensibilidade. O novo profissional precisa ser tecnicamente competente e eticamente responsável, fazendo uma inserção cultural, em alguns casos difícil, pois muitas vezes deixa a sua própria realidade para atuar em regiões remotas. No entanto, passado o primeiro momento da separação e vencida a saudade, acumula-se um capital diferenciado, que vai servir como lição para toda a vida.