Um choque de vergonha


Minha primeira lembrança política data de 1º de abril, quando se deu a revolução (ou como alguns chamam: o golpe) de 64. Não que os fatos históricos tenham me envolvido, mas porque meu pai fechou o armazém que funcionava na Vila Silveira e a preocupação com meu primo Valdemar, que servia no quartel.

Foi a primeira vez em que ouvi a convocação para que a população lutasse para preservar a “moral e os bons costumes”. E, somando-se a isto, dar a sua quota de sacrifício em função dos problemas enfrentados pelo país.

Mais recentemente, dois fatores falaram mais alto na mídia e com reflexos em nossos bolsos.

Um deles foi o caso da Varig, no tal de fecha, não fecha. Posso estar tratando rudemente de economia, mas se ela não consegue se manter em pé por conta própria, porque o dinheiro de todos nós tem que fazê-lo? Sabendo que 99% da população nunca vão por um pé em seus aviões?

Da mesma forma, a Petrobrás. Claro que ficamos contente que “o petróleo é nosso”. Mas este mesmo petróleo já nos causou aumentos em série (aquele que, quando aumenta na bomba, também aumenta o transporte e o custo de alimentos, por exemplo). No entanto, agora que somos auto-suficientes ainda não vimos a perspectiva de que baixem os preços, ajudando o bolso do cidadão.

Quando pergunto para os donos de pequenos e médios negócios o que fariam, caso tivessem dificuldades financeiras, todos afirmam: teriam que fechar. Possibilidades de negociação com o governo? Praticamente nenhuma e, nos muitos planos mirabolantes já apresentados como propaganda, o olhar de desconfiança está sempre presente.

Tão desconfiados, que passamos a olhar para as nossas políticas públicas com um pé na frente e outro atrás, pois bastou o presidente de um país praticamente desconhecido elevar a voz e nossas lideranças se desconcertaram.

Pior, ainda levamos lições: em recente encontro internacional sobre o processo de documentos de identificação, vieram nos ensinar que, tendo quase duas dezenas de documentos possíveis de servirem como identificação, só pode acontecer o que está acontecendo em nível de pilantragem.

De tudo isto, fico com a idéia de que precisamos de um choque. Não um choque destes de gestão ou algo parecido: um choque de vergonha. Infelizmente, estamos nos acostumando com a idéia de que somos eterna “potência”. Mas uma potência que não anda e que fica apenas na “impotência” no atendimento a sua gente.