Um espírito para o Turismo


Escrever a respeito de turismo é tão prazeroso quanto poder fazê-lo. Para quem usufrui deste espaço de sanidade mental sabe que, ao sair da rotina, é necessário que se estabeleçam novos paradigmas, completamente diferentes da filosofia de vida que norteia o nosso dia-a-dia.

Quem vai trabalhar na área, tem que ter o espírito de quem atua na “indústria sem chaminés”. Por um motivo muito simples: o profissional do turismo não pode – nem deve – pensar que é uma atividade mecânica, convencional, como o trabalho numa fábrica, num comércio, ou burocrata.

Quem pratica turismo está com suas defesas recolhidas e espera usufruir o que lhe é oferecido, com o despojamento que não consegue quando está tendo que lutar por seu espaço no quotidiano.

Este é o motivo pelo qual qualquer pecado cometido contra um turista é muito pior do que em qualquer outra transação: pode-se perdoar a atividade desastrosa de uma comerciária, de um bancário, de um professor. Mas não se perdoa quem fez do nosso precioso tempo de férias um absoluto fracasso. Muito menos, se esquece. E, pior: o efeito multiplicador da “propaganda negativa” é, em muito, superior a qualquer campanha por meios de comunicação.

O profissional do turismo tem que ser - além de profissional, é óbvio – um companheiro de jornada. “Mas eu apenas trabalho na venda de pacotes de turismo?” Mesmo aí. “Amarre” o pacote como se fosse para você. Como se você estivesse vivendo o grande momento da sua vida, depois de seu casamento, de ter tirado na sena, ou qualquer coisa que o alegre. “Mas eu sou apenas uma atendente de hotel que arruma as camas!” Pois sim. Que os ambientes sejam aqueles no qual você desejaria estar, gostaria de ficar.

Aqui reside uma diferença com outras profissões: ser um profissional de turismo é mais do que uma formação adequada. É um espírito que se precisa ter e passar para os outros, especialmente os nossos “clientes-parceiros”.

É óbvio que estamos distante, ainda de poder oferecer, em nossa região, algo parecido. Mas são muitos os espaços onde já se vislumbra o que possa acontecer. Pelotas é privilegiada por estar próxima ao mar, a uma magnífica lagoa e uma serra ainda inexplorada, com belezas que não ficam a dever à serra da região norte do Estado. O que nos falta são os investimentos de monta feitos naquela região.

E o espírito do turismo. Contei em um jornal de Pelotas que, em 1989, quando aconteceu uma grande seca na região serrana, os moradores de Gramado reuniram-se e optaram por ter a água cortada em suas residências, para que não faltasse na rede hoteleira e nos pontos de turismo.

São passos. Muitos passos, que precisamos dar para alcançar o desenvolvimento, também no turismo. Que, para o meu gosto, pode ser a salvação da lavoura: tanto o turismo que envolve o conhecimento de nossas potencialidades geográficas, quanto o turismo de eventos.

Não podemos ter medo é de sonhar. E de projetar. E de discutir. E de implementar as ações possíveis, enquanto não aportam por aqui os capitais necessários para investimentos maiores.

Estamos localizados num ponto estratégico de passada na América Latina. Precisamos estar alerta para que não seja apenas de passada, mas atrativo, pois, mais cedo, ou mais tarde, este será um entroncamento largamente valorizado por sua situação estratégica. Ganha quem estiver atento não só ao ir e vir de caminhões, mas de turistas que descem ou sobem do prata. E ao nosso turismo interno que, na falta de dinheiro, acaba acontecendo com mais força do que se imagina.