Um gesto de carinho


Minha mãe, a dona França, teve problemas com a bacia e ficou 45 dias imobilizada. A fragilidade em que se encontrava levou a que, quando iniciava a recuperação, contraísse um vírus do estômago. Resultado: 18 dias internada.

Comemorávamos a saída do hospital, no último dia de internação, e o pai, seu Manoel, foi fazer-lhe companhia no turno da tarde. Saindo para comprar material numa farmácia, caiu. Adivinhem? Uma luxação no pé. De quebra, alguns dias de molho.

Ao voltarmos para casa, uma cena inusitada: sentei numa banqueta para acomodar caixas de leite num armário. O banco se espatifou e fiquei numa posição ridícula, com os braços mantendo o equilíbrio entre um sofá e um armário, quase caindo. E o pai, olhos arregalados: “o terceiro não!”.

O que aprendi com tudo isto? Muito. Em princípio, já não duvido de meus alunos, quando “adoecem” pai, mãe, irmão, avós, diversas vezes ao longo do ano. Especialmente em situações de entrega de trabalhos e de provas.

Segundo: comprova-se um ditado que toca no âmago da questão – “Deus não dá o problema maior do que a força para enfrentá-lo”. Quando surge, há duas alternativas: ficamos inconformados, amargos e nos quedamos tristes diante de tudo; ou enfrentamos como algo colocado para aprendermos a superar desafios. Acabamos vivenciando situações insólitas no tratamento da mente e do corpo em que nos perguntamos: “mas eu não me preparei para isto!” Paciência. Há coisas para as quais não há preparação. Há aceitação.

Também na relação com as pessoas há uma lição: ao informarmos o que passou, elas precisam contar o que está acontecendo com elas - suas dores e fraquezas, parecidas com as que se vive. Se num primeiro momento até se pode ficar irritado, porque parece uma falta de atenção, na verdade, o que acontece é que se está compensado carências.

E há, também, o aprendizado em família. Quando se tem um paciente que retorna para casa, um primeiro pensamento é o de montar uma “pequena enfermaria” e que teremos que realizar os serviços técnicos que eram dispensados no hospital. Com o decorrer do tempo nos damos conta de que não existe mais um paciente, mas uma pessoa – pai, mãe, avó, avô, irmão, esposo, esposa – que precisa ser tratado como integrante da família. É uma grande lição, que só pode ser aprendida quando se vive este momento como um precioso gesto de carinho.