Um grito contra o medo


O Mosteiro foi acordado em meio à madrugada por um grito lancinante, que ecoou no absoluto silêncio dos corredores. O Mestre sentou-se na cama, ainda atordoado pelo sono, mas logo percebeu:

- O Aprendiz está tendo um pesadelo!

Correu para o quarto do pequeno menino e encontrou-o sentado no chão, num canto da peça, com os olhos esbugalhados e tremendo. Seu primeiro pensamento foi correr até ele e abraçá-lo. Mas sua proximidade pareceu assustar ainda mais a criança. Ficou próximo da porta e tentou iniciar uma conversa:

- Pequeno menino, o que aconteceu?

Nenhuma resposta. Mas sentiu que sua voz já conseguia fazer com que começasse a ficar mais calmo.

- Você teve um pesadelo?

Lágrimas começaram a correr pelo rosto da criança.

- Você está bem, agora. Não quer voltar para a cama?

O Aprendiz permaneceu onde estava.

- Então, eu posso ir até aí?

Não houve resposta, mas sentiu que já não seria rejeitado. Vagarosamente, aproximou-se, até poder tocar sua cabeça, num carinho aceito, pois foi se aconchegando até que seu rosto descansou na mão do Mestre. Tomou-o nos braços e levou-o para a cama. Ajeitou as cobertas e, ao sentar, estendeu a mão para diminuir a luz do lampião.

- Mestre, não apague a luz!

- Claro. Não vou apagar a luz. Vou apenas diminuí-la.

- E não vá embora, por favor!

- Claro. Vou ficar aqui. Agora tente dormir.

O menino encolheu-se de lado, fechou os olhos e pareceu que ia dormir.

- Mestre, porque muitas vezes não lembramos dos nossos sonhos. Especialmente quando eles são ruins?

- Não sei, pequeno menino. Não sei.

- E porque nos assustamos sem saber porque?

- Porque tem muitas coisas em nossa cabeça e em nossos corações que só afloram de vez enquanto.

- O que é aflorar, Mestre?

Pensou um pouco para não usar outra palavra difícil.

- Elas aparecem.

- Ah, bom.

- Mas agora vamos dormir.

Silenciou e começou a respirar mais demoradamente. O Mestre arranjou o cabelo na testa do pequeno aprendiz, como quem dá uma bênção. Pensou:

- É bem complicado explicar um sonho. Pior ainda, quando um sonho faz uma criança sofrer.

Levantou vagarosamente e dirigiu-se para a porta, quando ouviu uma voz no limiar entre o acordar e o sonho.

- Mestre, estamos amarrados à vida. O senhor vai ajudar a me libertar.

Voltou-se e pensou em comentar, mas sua boca apenas foi aberta e se fechou. Somente via um semblante tranqüilo, já percorrendo algum outro sonho. E, também, não sabia o que deveria dizer. Mais ainda, não sabia se era necessário dizer alguma coisa.