Um homem de boa vontade


 

Pois o Tibiriçá Freitas partiu. Chegou a hora de fazer o seu acerto com o Criador e, depois de algum sofrimento, o próprio Grande Arquiteto do Universo sentiu que podia levá-lo para uma conversa onde a risada solta e o falar alto são apenas lembranças do passado.

Tibiriçá trabalhou muito tempo em emissoras de rádio e televisão, em Pelotas, Rio Grande (sua cidade natal) e Porto Alegre, assim como na Assessoria de Comunicação da Prefeitura de Pelotas. Foi onde trabalhei mais tempo com ele.

Fiquei me preparando para uma visita que não aconteceu. Fui avisado na segunda, pelo Geraldo Fagundes, mas o tempo correu e eu tenho sempre a impressão de que estou atrasado. Brinco com alguns amigos que, ou descobrimos uma alternativa para nossas agendas, ou só nos encontramos em velórios e enterros!

Como em muitos casos, somos privilegiados, durante algum tempo, e convivemos com pessoas excepcionais. Mas o próprio ritmo de vida nos separa e aponta para direções diferentes.

Surge, então, o sentimento de perda. Poderíamos ser mais completos se tivéssemos mantido determinados relacionamentos. Mas não é isto o que acontece e, ao sentimento de finitude, soma-se a impressão de que não é somente o tempo que escorrega por nossos dedos.

A emoção nos alcança ao nos darmos conta de que, vivendo assim, resta um consolo: é que, mesmo que os caminhos que trilhamos sejam diferentes, há uma luz, uma energia, que nos chama em sua direção!

Neste momento, não importa qual é a nossa filosofia, a nossa crença, a nossa religião. Importa é que tenhamos sido, honestamente, homens e mulheres de boa vontade!

O tempo deu razão a Jesus que enfatizava seguidamente a necessidade de sermos “homens de boa vontade”. No início, parecia-me uma construção simplesmente retórica, mas ao ser vista com a perspectiva do tempo já vivido é o diferencial entre o existir em sua plenitude ou simplesmente vegetar.

Foi o caso do Tibiriçá: através de seus programas de rádio, das opções que fez pela Maçonaria e Rosa Cruz, só se encontrava quando estava ao serviço do outro.

Deve ter sido bonito o encontro do Tibiriçá com Deus – e vou imitar Manuel Bandeira - "Imagino Tibiriçá entrando no céu: / - “Licença, meu Santo?” /E São Pedro, brincalhão: / - “Entre, Tibiriçá. /Você não precisa/pedir licença!".

Claro que não. Há um lugar reservado para que descanse em paz, homem de boa vontade!