Vai chegar a minha vez


Noite de sábado, bom para buscar um lanche, mesmo em dieta, que ninguém é de ferro! Combinado o pedido, com os devidos ingredientes, sobra tempo para um papo e, pelas vias escuras do subúrbio, o tema vai e volta e, quando se está nas ruas, acaba sendo a violência: a violência anunciada e, resignadamente, esperada.

Pela principal rua do bairro, 9 horas da noite, passam as figuras mais bizarras e estranhas, algumas bêbadas, outras drogadas, outras ainda encarando cada um como se desafeto fosse. Uma “fauna” que aparece depois que o sol se põe e faz deste horário a sua própria “madrugada”. Vão perambular pela cidade, enquanto os cidadãos comuns recolhem-se, trancam portas, reforçam as grades, acionam alarmes, cercas elétricas, e rezam quando querem entrar ou sair de suas casas ou apartamentos.

Mas na pastelaria da Regi (para os íntimos, senão, Regina) quando aparece algum destes personagens o aviso é sempre o mesmo: “o patrão chega daqui a pouco”. Pois ainda existe um pouco mais de respeitabilidade quando um homem é o proprietário e responsável pela segurança de um estabelecimento.

Mas ela reconhece, com certa nota de tristeza na voz, que é só uma questão de tempo, pois o seu dia vai chegar. Ainda vai ser assaltada e só espera ter a tranqüilidade para não reagir ou criar uma situação que possa dificultar ainda mais a ação do delinqüente, que pode reagir de forma adversa e ferir ou matar alguém, pois o estrago pode ser bem maior do que apenas o financeiro.

Infelizmente, a cultura da violência está se estabelecendo entre nós. Disseram-me estes dias que o percentual daqueles que já não registram mais as ocorrências de pequenos furtos é grande porque não acreditam na capacidade da polícia de esclarecer estes casos. Contou-me também um amigo que, ao ter seu carro quase demolido por outro que invadiu uma preferencial, telefonando para a brigada, foi questionado se havia alguém ferido. Como a resposta foi negativa, recebeu como orientação que resolvessem entre si, ou registrassem uma ocorrência, porque não haveria o deslocamento de uma viatura.

Este é mais um direito que nos é sonegado: o da segurança, no ir e vir, sem qualquer restrição, em via pública, em determinados horários. O movimento do final da tarde, quando crianças, jovens e idosos aproveitam para um passeio, transforma-se em ruas vazias, depois do escurecer, pois cada um tem consciência de que pode sofrer algum tipo de violência. A certeza é apenas uma: ainda vai chegar a minha vez.