Valores e referências


Achei engraçado quando alguém, com um certo mau humor, numa palestra, afirmou que quando desejamos não chegar a lugar nenhum, organizamos um seminário. Satisfazemos nossa consciência de cidadão que está fazendo a sua parte, mas não podemos solucionar o problema que nos propusemos discutir.

Creio que, de vez enquanto, é o que acontece com o articulista. Fala como o profeta “que clama no deserto”. Algumas verdades são tão óbvias que precisam ser repetidas para que, finalmente, alguém diga: “mas era só isto?”

Ciclicamente, volta-se à discussão de quem é responsável pela educação e preparação de nossos jovens para a vida. Há diversas tendências, mas já é comum que os educadores digam que é a família; a família diga que são os educadores e, quando há um possível entendimento entre ambos, quem sabe sobre para as religiões organizadas, ou o estado.

Não é a primeira vez que falo a respeito, mas creio que vale a pena repetir: a responsabilidade é de todos. E que, possivelmente, por esta vontade de se fazer com que os processos sejam independentes é que não esteja dando certo.

Os modelos eram complementares: a educação iniciava pela família, adicionava-se a Igreja, em tenros anos, e, mais tarde, o processo era complementado pela escola. Os tempos modernos resolveram encontrar outros caminhos e sobraram crianças sem valores e sem referências. A família era capaz de passar o valor da solidariedade e do espírito de convivência; a Igreja os valores da fé; e a escola complementava a consciência do ser cidadão.

Importante: nos pais e irmãos, encontrávamos as referências familiares; um religioso, uma religiosa ou mesmo um catequista marcavam pelo espírito de fé; e a escola nos dava professores e professoras que calavam fundo em nossos espíritos.

Não me atrevo a dizer que isto não acontece mais. Mas parece que a articulação entre eles, sim. Acossados por necessidades, viramos profissionais da família, da religião e do ensino. Sobra pouco tempo, aquele tempo necessário para podermos dar atenção à pessoa que é o aluno.

Creio que esta é a chave do mistério: o processo educacional não pode ser exercido burocraticamente, em nenhum de seus níveis. Não há um “objeto de investigação”, mas um ser, com suas carências e anseios.

O foco é um só: aquele garoto ou aquela garota que se coloca à nossa frente, estende a mão e quer, apenas, um pouco de atenção e carinho. Pode parecer simples, mas não é. É um aprendizado. Inclusive, para quem quer ensinar.