Vidraça quebrada


Dou-me conta de que muitas pessoas conhecidas estavam na Europa - especialmente na Inglaterra - quando aconteceram os atentados que mataram mais de 50 pessoas e feriram centenas. Acompanhando os fatos, lembro que os ingleses manifestaram-se contra a Guerra do Iraque, mas fizeram a opção por uma promessa de estabilidade do primeiro ministro. E sofreram as conseqüências.

Não há nenhum argumento que justifique a violência. Como também não há nenhum argumento que justifique uma guerra. Especialmente quando as informações são suficientes para mostrar que eram mentirosos os "fatos" apontados e que interesses econômicos - como manter o fluxo do petróleo para o Ocidente - falaram mais alto, sendo atropeladas todas as instâncias internacionais. A primeira, a própria Organização das Nações Unidas.

Mas vendo o que aconteceu no metrô e no ônibus londrino, somos agredidos por imagens fortes. Especialmente nas fotos, os rostos têm uma perplexidade tangível. A idéia é de que, mesmo tendo sido avisados, não acreditavam que, em seu mundo, caberia tal atrocidade.

É a mesma experiência que passa alguém que foi assaltado, que teve a casa arrombada, ou um amigo ou parente vitimado por um ato de violência. Não há retorno. A lembrança vai ficar pelo resto da vida e reaparece quando menos se espera. Ninguém, até agora, foi capaz de provar que se pode reverter este processo de dor, aberta como ferida perpétua no espírito.

Estamos vivendo um tempo de profunda tensão, em que, historicamente, se encontram novos caminhos. Por exemplo, hoje, é consenso que se precisa resolver a problemática social.

Mas já não basta. É preciso uma mudança cultural. Foi o que levou à tese sobre "vidraças quebradas", em Nova Iorque, onde se optou por tolerância zero para com a violência: quebrado o primeiro vidro e não consertado, ou não penalizado o infrator, a tendência é que novos vidros possam ser quebrados e que novos infratores sintam-se estimulados a delinqüir.

No caso do Brasil, precisaria vir acompanhada de uma “operação mãos limpas” (de origem italiana), moralizando a utilização dos recursos públicos.

Porque, infelizmente, o primeiro vidro da janela já foi quebrado.