Visão do administrador - visão do povo


Sempre quis escrever um artigo com base em dois “pressupostos teóricos” populares: João XXIII, o papa da simplicidade, dizia que seu desejo era ter a fé de uma mulher da zona colonial, que ordenha suas vacas e vai para a lavoura confiante que “Deus proverá”. E de Miss Marple, personagem da escritora de romances de suspense, Agatha Cristhie, idosa e solteira no interior da Inglaterra, mas que resolvia seus casos sempre “porque alguém da comunidade já passou por algo parecido”.

E onde está a semelhança? Para dizer que, na maior parte das vezes, as soluções não estão em planos administrativos mirabolantes, já que a população contenta-se em ver resolvidos seus problemas imediatos: ruas sem buracos, iluminação pública, saúde, educação e emprego. Não obrigatoriamente nesta ordem.

Sempre me parece que fazer este pedido não é muito, diante da exorbitância dos valores que a administração pública retira, diretamente de nossos salários, sob a forma de impostos e contribuições diversos (os números rondam em mais de um terço, a carga fiscal que incide sobre os salários). Em tese, para garantir a governabilidade, em favor do próprio cidadão.

Então, o que dizer ao administrador público? Que esqueça seu discurso e, ao menos algumas vezes, saia às ruas e faça exercícios do tipo:

- Ande de ônibus. Já dizia um publicitário: andar de ônibus faz com que ouçamos muita coisa, inclusive a ressonância do que foi realizado. Entre “abobrinhas” de todos os tipos, poderá escutar verdades que não são ditas, ao menos com tal intensidade, nos corredores e bastidores do poder.

- Ande “como mortal”, por ruas que normalmente os cidadãos utilizam. Quem sabe, até, sinta-se indignado porque os “responsáveis” não foram capazes de recuperar a via pública, depois de suas escavações; o resultado da limpeza já está se espalhando pelo calçamento; ou quem deveria dar atendimento em um posto de saúde ou creche resolveu que hoje poderia fazer uma folga e deixou desassistida a população que mais dificuldades tem de fazer chegar uma reclamação aos seus superiores.

Num de seus livros, frei Betto dizia que seu sonho era o de encontrar, em Roma, o Papa, numa estação ferroviária, com uma maleta na mão, dizendo que vinha de uma diocese e iria para uma outra.

Pode servir como exemplo ao homem público. Um mandato popular é dado, exatamente, para isto, para prestação de serviço 24 horas por dias, sete dias por semana. Pena é que a própria população não o saiba e se transforme, muitas vezes, apenas em cabresto eleitoral.

Poucos são os que realmente fiscalizam as atividades públicas. O que é, muitas vezes, doloroso de se ver, porque nega uma parcela do “ser cidadão”. Mas também não significa que isente os nossos representantes eleitos de ter que prestar conta de suas ações: pode não ser agora, mas a maior distância, com certeza, será na próxima eleição.