Vivendo com a diferença


A fila era especial para atendimento a idosos, pessoas com algum tipo de doença e deficientes. No entanto, a atendente, parecendo de mau humor, resolveu demonstrar seu estado de espírito. Teve um prato cheio: uma moça, bem vestida, bem maquiada, postou-se em atitude de espera. Não precisou muito tempo para ser advertida em voz alta: “a fila é para idosos, doentes ou deficientes!” Sem graça, mas com firmeza, olhou de forma triste para o início da fila e perguntou: “preciso levantar a blusa e lhe mostrar a bolsa de colostomia, para provar minha deficiência?”

Infelizmente, não sabemos conviver com o diferente. Uma pessoa que utiliza uma bolsa de colostomia – para recolhimento de dejetos do próprio organismo – já está fragilizada e merece um apoio especial, não precisando ter, no corpo ou no rosto, marcas que identifiquem suas carências. No entanto, partindo do princípio de que “todos são culpados até que provem que são inocentes” (invertemos a máxima jurídica!), encontramos sádicos que se divertem com o sofrimento alheio e já não lhes basta identificá-los, é preciso expor suas mazelas!

E não para aí: jovens e adultos ocupam vagas de estacionamento dedicadas a deficientes, descendo livres, lépidos e faceiros de seus carros, privando quem efetivamente necessita, enquanto há vagas mais distantes; menosprezo por idosos com dificuldades de locomoção, colocando-os em situação de risco, quando o simples oferecimento de um braço amigo pode prevenir uma queda ou algum transtorno; valorizar a atuação de uma criança, jovem ou adulto que possui alguma excepcionalidade, mas capazes de tantas atividades profissionais e sociais, para as quais são preparados, e a capacidade impar de pedir e de dar carinho!

Aprender a viver com o diferente é aprender a confiar, pois a confiança nos faz capazes de superar dúvidas e receios e alimentar nossas almas com atitudes de gentileza. Gestos que incluem o dar a vez numa fila, quando necessário; caminhar um pouco mais num estacionamento para manter as vagas especiais para quem delas precisa; estender o braço numa oferta generosa e desprendida; receber um olhar que não pede nada a não ser uma expressão de carinho e amor.

Mudar o foco para o outro é o jeito de perceber o quanto nossas dificuldades são pequenas. Estas podem ser superadas com o tempo, mas o outro problema – a carência de espírito – infelizmente, não, porque atrofia a alma e a sensibilidade.