Vivendo a Cidadania


Manoel Jesus*

manoel@atlas.ucpel.tche.br

 

Todas as instâncias organizadas, hoje, refletem a respeito de cidadania. Em nossas igrejas, em sindicatos, associações de bairros, entidades empresariais, nas salas de aula, chega um momento em que a discussão gira em torno da necessidade de que se tome consciência de direitos e deveres, como cidadãos.

As discussões são muito interessantes, mas elas tendem a perder sentido se não se refletirem na concretização de pequenas ações do nosso dia-a-dia. Tomo aqui um exemplo para ilustrar casos que contrariam o espírito cidadão.

Numa quarta-feira pela manhã, sai do super-mercado e fiquei aguardando, no carro, que voltassem os meus acompanhantes. No estacionamento, um terço de ocupação. Uma senhora chegou, estacionou na única vaga reservada para deficientes físicos. Fiquei observando e, para minha surpresa, não precisou de cadeira de roda, nem de muletas para sua locomoção. Desceu, arrumou o cabelo, acionou o dispositivo de segurança do carro e entrou, bela e fagueira, para efetuar suas compras.

Não havia desculpas para o ato. Primeiro, o estacionamento estava, praticamente, vazio. Segundo, uma placa com bastante destaque mostrava a reserva da vaga para deficientes físicos.

Claro que a melhor justificativa é que a vaga era a mais próxima possível da rampa de acesso à porta do super-mercado, portanto, a melhor vaga possível.

Qualquer explicação que se tente dar, não satisfaz. Aliás, só há uma: há pessoas que têm prazer em quebrar pequenas regras, com explicações do tipo: “e daí? o deficiente também tinha todo o estacionamento à disposição?” Ou: “porque privilegiar alguém, só porque tem algum problema?”

O que precisamos é de um tratamento pessoal. Este passa pela retomada de pequenos gestos, pequenas gentilezas, que podem amenizar e até acabar com muitos de nossos sofrimentos. Escutava de um palestrante que o pior é que a sociedade está fazendo com que o homem ande em volta do próprio umbigo e que, se desviasse a atenção para o umbigo do outro, já teria solucionado metade de seus problemas.

A questão não é somente de uma vaga. Poderia não ter chegado nenhum deficiente físico naquele dia ao super-mercado. A questão é de solidaridade, uma das características básicas do ser cidadão: existem parcelas da sociedade que precisam de mais solidariedade do que outras. Entendam bem: não estou falando de benevolência afetada. Ao contrário: o próprio deficiente quer ser tratado como um cidadão, com seus direitos e com seus deveres. Mas a situação em que se encontra, em muitos casos, exige que tenha um tratamento diferenciado.

E para a senhora do estacionamento, somente um recado: não vai lhe fazer nenhum mal andar um pouco mais. Pelo contrário, se estiver caminhando e ver alguém descendo de um carro, naquela vaga, tomando duas muletas, ainda vai dar graças a Deus porque tem duas pernas sadias.

 

*Mestre em Desenvolvimento Social