Voltando às coisas simples


Manoel Jesus*

manoel@atlas.ucpel.tche.br

 

Trabalhar com educação é sempre um desafio. Desde que assumi disciplinas no ensino de Jornalismo e Relações Públicas tenho ouvido falar muito a respeito do despreparo com que chegam os alunos aos bancos universitários. É verdade que também ouço das dificuldades enfrentadas naquela fase da vida e de aceitar um processo de ensino diferente daquele com o qual estavam acostumados e que deveria ser muito mais provocador e instigador do que a seqüência de um ensino convencional de primeiro e segundo grau.

De tudo o que tenho ouvido, há um problema que é de cunho eminentemente cultural: a dificuldade de expressão, que chegou ao nível de pobreza intelectual.

Rapidamente, a culpa é jogada nos graus anteriores de ensino, acusados de não investirem o suficiente em leitura, redação e expressão. Quer me parecer que esta é uma parte da verdade. Não o todo. Embora a escola muitas vezes até procure incentivar estes elementos em seus jovens, não há o respaldo das famílias, que, muitas vezes, não distinguem de onde seus filhos estão assimilando informações, seja das babás eletrônicas (televisão, videogame e computador) ou da rua. Muito menos lhes é cobrado um tempo efetivo para o estudo e para a leitura.

É uma verdade irrefutável: o jovem que não lê, não se exercita em redação, vai, com toda certeza, ter dificuldade naquilo que é o mais simples na construção de uma profissão: arranjar, logicamente, o seu pensamento; ter a capacidade de sistematização daquilo que vai apresentar em público; ou de concatenar informações para alguma futura atividade.

Nos trabalhos de extensão que faço, repito, à exaustão, a necessidade de que se exercite a mente, com leitura, redação e coisas simples como a chamada “oração encadeada” (onde se recorda pessoas pelas quais se quer rezar diariamente) e fazer palavras cruzadas. Para minha surpresa, sempre há alguém com algum livrinho de palavras cruzadas na bolsa e algum depoimento. Num dos cursos, uma pessoa, já com alguma idade, disse que havia começado a ter lapsos de memória e que o médico neurologista recomendara este exercício. Fora um santo remédio.

Não desejo ser saudosista, mas estamos esquecendo destes pequenos e necessários exercícios, na construção do conhecimento (além de outros, é claro). Quando ressuscito algumas práticas, como pequenas peças de teatro, ou decorar uma poesia ou uma música, sinto, num primeiro momento, a contrariedade por um tipo de atividade para a qual estão desacostumados. Mas a expressão de alegria, nos olhos de quem faz, é compensador, ao final, pois sempre fica uma novidade e a descoberta de que é simplesmente uma certa “dolência (preguiça pode parecer muito forte) intelectual” que impede um exercício tão saudável.

Não sei se é necessária uma cruzada para que se estimule o jovem (e será apenas ele?) ao bom e saudável hábito da leitura. Mas ficando apenas nele, percebo que já há um bom número buscando orientação para isto. Pena é que o processo poderia ser bem mais simples e com menor dificuldade, se o início não fosse apenas no terceiro grau. Bastaria que, independente das pautas escolares, os pais sistematizassem os momentos de estudo e leitura. Simples, não? Nem tanto. A cultura da imagem cada vez mais levará o estudante a querer passar o mais longe possível dos livros. E esta vai acabar sendo a grande diferença entre quem reproduz e quem vai gestar conhecimento.

 

*Mestre em Desenvolvimento Social