Vou envelhecer


Amiga viajou com a mãe, de quase 80 anos, e acabaram num parque de diversão, com todos aqueles brinquedos que desafiam a gravidade e a sanidade mental. A mãe, no entanto, não se fez de rogada e quis provocar os próprios limites, inclusive na Montanha Russa, que a filha passou ao lado. A rapaziada que estava na fila fez festa ao ver a velhinha “radical” que iria acompanhá-los no grande desafio. Resultado, ao final, muitas fotos e promessas de postagens em diversos recursos da Internet.

Envelhecer é sempre um mistério. O sonho de consumo é que se possa ter saúde razoável e qualidade de vida para enfrentar os problemas que, naturalmente, acontecerão. Os geriatras dizem que o envelhecimento é resultado de tudo o que fizermos (“plantamos”) ao longo da vida. Isto é: fumar, beber, comer mal ou em excesso lança uma fatura que será cobrada exatamente na chamada terceira idade.

Tenho o privilégio de conviver com diversos grupos de idosos e me arrisco a dar algumas dicas: o primeiro é de que a pessoa não fique na volta do próprio umbigo, mas tente fazer algo pelo outro – pode ser apenas tricotar meias para outras pessoas idosas. O segundo, procurar um grupo de convivência, pois precisamos de momentos de silêncio, mas também daqueles em que se atua comunitariamente ou, até, se diverte, em grupo. E o terceiro, por uma exigência natural, buscar um arrimo na espiritualidade. Alguém que tem o sustento da fé, dificilmente deixará de enfrentar cada momento com o respaldo de uma silenciosa compreensão.

Sei que vou envelhecer. Um tempo para saborear a recordação de cada momento que passou: as diabruras de criança; a contestação da juventude; os anseios da maturidade; e a proximidade do fim. O que me seduz em viver é a capacidade de passar por cada um destes momentos como se fossem únicos: Não vivo apenas porque vai haver o amanhã, vivo pelo simples fato de que posso usufruir do convívio com pessoas e sorver, em cada instante, o ar que respiro num parque, na rua, na Montanha Russa, ou da janela de minha casa.